mãos somente

mãos somente

Ah, as mãos…
Expressam-se na dança dos dedos, na fragância do toque e no deslizar do gesto.
São cegas que veêm, abrindo-se!
Ouvem sem sons, detendo-se!
Mudas que são e tão eloquentemente falam!
Enquanto se laçam e se entrelaçam,
na vida sustêm
na dor suportam,
na alegria tropeçam
e tanto espelham no amor…


(Foto Eric Kellerman)

not yet

not yet







Fala-me de procura de equilíbrio, de serenidade.

Ainda que sabendo da lonjura das viagens ao dentro de si, oiço como se o mundo interior fosse todo perto e próximo. Mas ainda não… not yet.

Reconheço que a sua convicção acerca de si é contagiosa.

Ainda que sabendo dos passos excessivos em busca de cada si, acendo a esperança do encontro fácil e da alegria inesperada. Mas ainda não… not yet.

Quando me fala assim, devagar, tudo parece ter mais sentido ou menos dimensão. Ainda que cada elemento tenha o valor e a prismacidade de si.

Um dia, serei assim sábia ou, pelo menos, pacificada. Mas ainda não…not yet.

(«Balance», Lumme)


rumo a Ítaca

rumo a Ítaca


Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
(…)
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha, velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Konstantinos Kaváfis

A ideia dos espelhos de Ítaca cintila no horizonte…

Traz ideia de viagem.
Da chegada que é regresso.
Da partida que é chegada.

Das aventuras e riscos.
Dos receios que se levam na alma (que Poseidon habita-nos e não ao mar).

Do herói que afronta ciclopes.
Do estrangeiro tornado ilhéu como nós.

Dos que vêm e dos que vão, tornando ilhas-cárcere em ilhas-refúgio.
Das pégadas em navegação de quem recusa não-regressar.

Sigo as constelações, que mais não são do que gigantescos fios ligando estrelas.
E os fios não nos tiram dos labirintos mas levam-nos a Ítaca…
-


sítios de passagem

sítios de passagem

Passei por lá… e gostei.
O sítio é: Espero bem que não

este texto foi espelhado-transportado em copy-paste:

“Há um outro eu em cada um de nós que pode ser melhor ou pior quando estamos com pessoas. Quando somos pequenos, os nossos pais avisam-nos disso e apertando-nos os cordões, ajeitando-nos o cabelo, vão-nos preparando para o que aí vem: ” olha que tens que te portar bem, que hoje vamos ter visitas!”. E posto isto, arrumávamos o quarto, fazíamos os deveres e vestíamos a nossa melhor roupa, na esperança que a filha do casal tivesse a nossa idade e gostasse de jogar ao quarto escuro. Mas disto não falo agora. Falo sim, da transformação das pessoas quando estão juntas e quando se separam. Mais do que isto. Falo da transformação das pessoas quando estão com os outros e quando estão connosco. É uma diferença grande que se acentua quando nós a presenciamos. E nessas alturas, ficamos com vontade que aquelas pessoas fossem sempre assim, tão amáveis, prestáveis, alegres, contadoras de histórias, solidárias, interessadas em tudo aquilo que dizemos, que fazemos, disponíveis em absoluto para o que for necessário, a tudo dispostas para melhorar o nosso dia. Quando estamos com outros pessoas, só queremos mostrar o bom que temos, como se fossemos um daqueles feirantes de microfone de lapela a vender qualidades em cima de um camião de caixa aberta: Olhem como sou generoso! Quem quer comprar? Olhem que engraçado que sou! Quem dá mais? Olhem que habilidades eu faço. Quem me quer?

Daí que eu defenda que devíamos viver, como se passássemos a vida a ser visitados por pessoas a quem deveríamos dar o melhor de nós, isto é, exactamente aos que vivem connosco.
A ideia é revolucionária – bem sei – mas não tenho dúvidas que serei recordado depois disto, como o Lévi-Strauss português e todos me aplaudirão à minha passagem.

E assim, a partir de hoje, de cada vez que alguém dos nossos chegar a casa vindo do trabalho, haverá confetis e serpentinas pelo ar e bolinhos de bacalhau e croquetes na mesa. Haverá música, haverá vinho nos copos e a festa será tanta, que todos seguirão o nosso exemplo e todos perceberão cada festa da vizinhança, do mesmo modo que usualmente entendemos o ranger das camas em cima do nosso quarto. E assim, quando a meio da tarde, percebermos que no segundo esquerdo do nosso prédio, por ali vai uma celebração muito semelhante às imortais noites da Motown, é quase certo que deve ter chegado o filho da escola, ou a mãe do emprego, ou o pai da vizinha da frente. E assim, estranhamente, a festa só terminará quando chegarem os outros, os que não conhecemos tão bem, melhor, os que só conhecemos o bom, precisamente os que nos visitam, interessados em apenas conhecer essa parte.”

vestir(me) de mim

vestir(me) de mim



Às vezes, tenho de me vestir de mim, devagar, a ver se me livro da roupa desbotada de todos os dias. A roupa que mal pertence, como um uniforme incómodo.

Depois, acabo por dar conta que me fui deixando por aí – uns pedaços na berma da estrada, outros nos arbustos onde tropecei. Um sorriso além, uma gargalhada caída algures. Uns gestos habituais quedam-se esquecidos.

E lá tenho de me ir procurar. É que com tanta correria, viagem e realojamento, vou-se deixando por espelhos e labirintos. Esqueço-me de coisas de mim, deixo-as ao acaso como quem perde guarda-chuvas.

Um dia desses, volto para mim. De um longo rearrumar de puzzle, de uma série de pedaços reorganizados que se reencaixam, e alegram desmedidamente no reencontro.

Um dia desses, viro-me de repente e dou de caras comigo. Com a pessoa que sei que sou, ou julgo ser. Em vez daquela que dou comigo a ser ou da pessoa que sei que seria.

Aliso os vincos em mim , estico devagar um canto dobrado… e, pronto, lá vou à pressa, procurar a roupa do dia de mim.

anónimos identificados

anónimos identificados

há figuras certas nos dias,
de gente que nem se conhece, nem se sabe ao certo quem é.

gente que faz o mesmo troço, pela mesma hora,
que está na estação de serviço na altura de pagar o gasóleo,
que vem a caminhar no mesmo sentido,

que nos habituámos a ver usar aquelas cores
caminhar naquele passo
parar daquela forma à beira da passadeira

que está na livraria quando lá vamos
que sorri ao de leve, como se nos conhecesse,
numa pré-identificação que é proto-reconhecimento.

gente para quem nós somos espelho
do que para eles representamos.

horizontes

horizontes

Para lá do horizonte, não se sabe o que está
e provavelmente, nem está lá nada….
Porque o que não se vê, pode imaginar-se mas não se cria, apenas por isso.

Caminha-se para um horizonte que vai mudando,
e quando se chega lá, ao que era horizonte,
passa a ser ponto de partida e a ter-se outro horizonte…

Para lá do horizonte, é apenas uma fugaz ideia
do que pode (vir a) ser um futuro precário, um frágil imaginário….

Para lá do horizonte, é uma boa expressão para a incerteza

Distâncias

Distâncias


Depois, V. Melo, 1000imagens Posted by Hello

Dos meus aos teus braços
o caminho é bem curto.
Nossas bocas fazem o encontro
do desejo incontido e longo.
Depois, tudo é posse louca.
Músculos, carinho, seiva.
Paixão da carne que transvasa
nas vontades de todos os tempos.
Terminou. Músculos lassos.
Vontades esgotadas.
É longo agora o caminho dos meus
para os teus braços.

Conceição da Costa Neves

de fogo e sal

de fogo e sal



para salpicos de sal em ferida aberta, sou hábil….
por isso, não esperes que te conte da doçura que as tuas mãos entornam na minha pele.
Não me peças que descreva os segredos que se expostos perderiam magia.

sobre lágrimas não choradas, sou hábil…
por isso, não esperes que te explique em palavras à toa esta impregnação de sentidos.
Não esperes que te narre a quietude interior cheia de tempestades.

sobre solidão armada, sou mais hábil…
por isso, não me peças que des-traje a alegria e me re-vista por fora da solenidade interior.
Não me peças que explique como uma tristeza estranha se transforma em turbilhão ardente.

sobre perder-se em segredos, sou ainda mais hábil….
por isso, não contes que saiba dizer o que de mim mesma parece ocultar-se.
Não me peças que conte – e nem sei se quero tentar que entendas.


de quando em vez

de quando em vez

de tempos a tempos
de agoras em agoras

certas horas
certos momentos

chega mansamente,
como neblina ou fumo.

embacia-me o olhar
ofusca-me como raio de luz

e sem que quase dê por isso
leva-me a um canto sombrio cá dentro
e faz-me refém

depois deixa-me ali,
e como veio assim se esvai,
singrando na memória e na alma,
armado de saudade e ausência.